O
PÃO NOSSO DE CADA DIA
O
que os miseráveis fazem para saciar a fome?
Ao
longo dos tempos somos treinados para esquecer e olhar somente para o
próprio umbigo.
Não
nos atordoa a ideia que possuímos parte que pertence a outros.
Quando
terminar este crepúsculo, continuaremos como se nada tivesse
acontecido, porque somos dotados de indiferença e egoísmo.
O
relógio natural, marcava 17 horas, era um dia de semana, não fazia
a mínima diferença qual era aquele dito. Sentia um infortúnio, uma
angustia. Quase que não raciocinava direito.
Havia
centenas de milhares na quela situação. A água era barrenta,
restos que caiam do céu e formavam poças de lama. É inacreditável
como o cérebro responde as necessidades extremas; "ele" faz
um julgamento composto de fisiologia e espiritualidade e tenta buscar
uma solução mais urgente para toda aquela inanição.
Estávamos a quase um mês sem comer. Comer comida de verdade, nos alimentávamos
dos capins e barro, feitos da própria terra onde pisávamos. As crianças morriam como esqueletos vivos porque suas mães não
produziam leite. Quando pensávamos na ajuda humanitária, tínhamos a convicção que era mais um sonho inalcançável.
Fazíamos parte de um grupo que era contra a ditadura dos governos locais, que
assassinavam e estupravam, crianças e mulheres.
Todos
os anos morrem milhares de seres humanos de forma covarde. As
injustiças são cometidas de forma tão natural que já não temos
mais noção do que é certo.
A
fome é o alimento do diabo e a resistência é a prova que Deus
existe.
No
início pensamos nos mais fracos, que adoecem com mais facilidade.
Por instinto cuidamos dos mais novos, depois as mulheres, aquelas que
estão amamentando e depois os mais velhos. Percebemos em nosso
desespero que todo aquele esforço é em vão. Quando os algozes
chegam, simplesmente aniquilam a todos. Me sentiria um covarde se
não tivesse lutado para defender o que era indefensável. Aprendi
que os princípios vencem a fome e o careter nos faz orgulhosos de
nossas carências.
No
dia seguinte não havia mais nenhum inimigo, apenas cinzas e mortes,
por todos os lados, em um raio de um quilômetro. e então, testemunhei a
solidão do abandono. Os que sobreviveram, morreram de fome, outros
de infecção. Até hoje não consigo entender como meus
ferimentos
não me sucumbiram.
Jamais
perdi a esperança e o sonho de sentar em uma mesa e comer, nem mesmo
se fosse uma única vez. Ouvi dizer que do outro lado do oceano as pessoas comem até cinco vezes por dia, isso me trazia um alento e o
pensamento ia longe para tentar buscar aquele gesto: "Eu comendo
de manhã, a tarde e a noite". Então percebia que felicidade
está intimamente ligada ao alimento. e não é pelo prazer e por
saciar o ego, é pelas conquistas justas, como o trabalho honesto, o pão
mesmo nosso de cada dia, sabe?
Tinha
receio que não chegasse até aqui e não vim para pedir, vim para
fazer você entender que muitos ficaram lá e ainda sobrevivem sem
saber se o amanhã virá.
Tanta
fartura desperdiçada, tantos apegos, tantas fortunas sem
merecimento, tanta soberba e idolatria do seu próprio eu.
Hoje
comprovei que esses dois lados, só aniquilam ainda mais o que já
está corrompido. A fome não é um sofrimento menor do que aquele
que desperdiça um alimento. Os assassinos de meu povo são tão
culpados quanto os governos corruptos, ambos provocam devassidão.
Hoje
pela manhã quando estava chegando para o trabalho, uma bola foi
desviada para minha direção, quando abaixei para pegar, o pequeno
pedro, já estava apostos para recebê-la de volta. Ele agradeceu e
me convidou para jogar, naquele dia eu faltei ao serviço...
Por Carlos Gaia Lobato
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