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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O PÃO NOSSO DE CADA DIA


O que os miseráveis fazem para saciar a fome?
Ao longo dos tempos somos treinados para esquecer e olhar somente para o próprio umbigo.
Não nos atordoa a ideia que possuímos parte que pertence a outros.
Quando terminar este crepúsculo, continuaremos como se nada tivesse acontecido, porque somos dotados de indiferença e egoísmo.
O relógio natural, marcava 17 horas, era um dia de semana, não fazia a mínima diferença qual era aquele dito. Sentia um infortúnio, uma angustia. Quase que não raciocinava direito.
Havia centenas de milhares na quela situação. A água era barrenta, restos que caiam do céu e formavam poças de lama. É inacreditável como o cérebro responde as necessidades extremas; "ele" faz um julgamento composto de fisiologia e espiritualidade e tenta buscar uma solução mais urgente para toda aquela inanição.
Estávamos a quase um mês sem comer. Comer comida de verdade, nos alimentávamos dos capins e barro, feitos da própria terra onde pisávamos. As crianças morriam como esqueletos vivos porque suas mães não produziam leite. Quando pensávamos na ajuda humanitária, tínhamos a convicção que era mais um sonho inalcançável.
Fazíamos parte de um grupo que era contra a ditadura dos governos locais, que assassinavam e estupravam, crianças e mulheres.
Todos os anos morrem milhares de seres humanos de forma covarde. As injustiças são cometidas de forma tão natural que já não temos mais noção do que é certo.
A fome é o alimento do diabo e a resistência é a prova que Deus existe.
No início pensamos nos mais fracos, que adoecem com mais facilidade. Por instinto cuidamos dos mais novos, depois as mulheres, aquelas que estão amamentando e depois os mais velhos. Percebemos em nosso desespero que todo aquele esforço é em vão. Quando os algozes chegam, simplesmente aniquilam a todos. Me sentiria um covarde se não tivesse lutado para defender o que era indefensável. Aprendi que os princípios vencem a fome e o careter nos faz orgulhosos de nossas carências.
No dia seguinte não havia mais nenhum inimigo, apenas cinzas e mortes, por todos os lados, em um raio de um quilômetro. e então, testemunhei a solidão do abandono. Os que sobreviveram, morreram de fome, outros de infecção. Até hoje não consigo entender como meus
ferimentos não me sucumbiram.
Jamais perdi a esperança e o sonho de sentar em uma mesa e comer, nem mesmo se fosse uma única vez. Ouvi dizer que do outro lado do oceano as pessoas comem até cinco vezes por dia, isso me trazia um alento e o pensamento ia longe para tentar buscar aquele gesto: "Eu comendo de manhã, a tarde e a noite". Então percebia que felicidade está intimamente ligada ao alimento. e não é pelo prazer e por saciar o ego, é pelas conquistas justas, como o trabalho honesto, o pão mesmo nosso de cada dia, sabe?
Tinha receio que não chegasse até aqui e não vim para pedir, vim para fazer você entender que muitos ficaram lá e ainda sobrevivem sem saber se o amanhã virá.
Tanta fartura desperdiçada, tantos apegos, tantas fortunas sem merecimento, tanta soberba e idolatria do seu próprio eu.
Hoje comprovei que esses dois lados, só aniquilam ainda mais o que já está corrompido. A fome não é um sofrimento menor do que aquele que desperdiça um alimento. Os assassinos de meu povo são tão culpados quanto os governos corruptos, ambos provocam devassidão.

Hoje pela manhã quando estava chegando para o trabalho, uma bola foi desviada para minha direção, quando abaixei para pegar, o pequeno pedro, já estava apostos para recebê-la de volta. Ele agradeceu e me convidou para jogar, naquele dia eu faltei ao serviço...

Por Carlos Gaia Lobato

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